Como chegamos na escola do século XXI? Avançamos com a tecnologia ou paramos no tempo?

Por favor, feche seus olhos e imagine uma escola. Pode ser a escola em que você trabalha, a escola em que estudou ou a escola que seus filhos, sobrinhos, irmãos … estudam. Acredito que se eu pedir para que cada pessoa que fez esse exercício mental desenhe esses locais teremos estruturas bem parecidas, prédios, salas de aulas, refeitórios, talvez uma biblioteca ou sala de informática de diferença, mas os modelos de escola não mudaram muito ao longo dos anos. Para entendermos o porquê dessa estrutura, devemos voltar um pouco no tempo.

A etimologia de “escola” veio da Grécia antiga, com a palavra “Skhole” no latim “Schola”, que tem o significado de “ócio, tempo livre” mas que também significa “discussão, conferência e estudo”. A escola grega é um lugar que separa as experiências de quem tem tempo livre, tempo de lazer, tempo para estudar, aprender e experimentar o tempo da experiência.

E como chegamos da Shkole até os modelos de escola de atualmente? Vou fazer uma breve contextualização histórica para entendermos um pouco o processo.

A educação se fez presente em todos os momentos da sociedade.

Em sociedades tribais era voltada para atividades de caça, coleta de alimentos e ritos religiosos. A escola surge no Egito, Grécia e Roma em um sentido mais político. No Egito e na Grécia a maior importância era a formação para a tarefa do poder, que apenas os jovens da classe dominante tinham acesso a essa educação. Os egípcios desenvolveram uma educação cujo o intuito era de resolver problemas práticos e concretos. A Educação Grega, voltada para a formação do cidadão, tinha como pilar o falar e o fazer. O falar com o intuito político tinha como propósito da arte do convencimento, a dominação da retórica. O fazer era a preparação para a guerra, um treinamento militar e a atuação em campos de luta. Já na Roma Antiga, o desenvolvimento da educação foi baseado no sistema Grego; a família que fazia a educação, cuja ênfase era na arte da retórica e do debate. Os pobres não tinham uma educação formal, mas eram ensinados a ler e a escrever.

Na Idade Média, a educação era voltada para os ensinamentos religiosos, portanto era a igreja quem fazia a transmissão do saber e era apenas uma parcela da população que tinha acesso a essa forma de ensino.

As escolas começam a surgir na Contra Reforma, quando os jesuítas fazem uma sistematização de um modelo de educação onde buscavam desenvolver a religiosidade e a potencialidade das pessoas. Com o desenvolvimento do comércio, a necessidade da leitura, escrita e habilidades com contas foi aumentando, então a burguesia começa a estimular uma escola com ensinos práticos para a vida.

Essas escolas que começam a surgir no século XVIII tinham ofertas diferentes para classes diferentes, enquanto o rico podia estudar o ensino básico e o superior, o pobre tinha acesso apenas ao ensino primário.

A Primeira Revolução Industrial foi um grande marco do início do capitalismo no mundo. As novas técnicas de produção de mercadoria, com uma nova tecnologia, teve grande impacto na sociedade. Segundo Marx (1984) a forma de se relacionar com o trabalho e de pensar mudou com esse fato. Se antes tínhamos um artesão para produzir um relógio, com as modificações do sistema de trabalho, esse mesmo objeto passa a ser produzido em maior escala e por vários trabalhadores. O trabalhador deixa de ter o domínio do seu trabalho e vira parte de algo maior.

A Segunda Revolução Industrial que teve grande desenvolvimento técnico, científico e de trabalho, tem como maior característica a linha de montagem criada por Ford no início do século XX, introduzindo uma produção padronizada, em série e em massa.  

As fábricas necessitavam de mão de obra e para esse trabalho ser realizado, era necessário um grau de instrução dos operários para o manejo das máquinas. O trabalhador é o sujeito que desenvolve as funções mecânicas e que necessitam de pouco ou nenhum raciocínio. Nesse momento da nossa história, a característica principal é a separação do sujeito que pensa e usa o raciocínio (engenheiro) e quem executa o trabalho (o operário).

Chaplin

Essa transformação no mundo acaba exigindo uma nova escola que introduza o ensino técnico e profissional, garantindo o crescimento e gerando riqueza para a burguesia capitalista.

A escola mantinha uma estrutura para atender uma grande quantidade de alunos e o papel do professor era transmitir alguns conhecimentos específicos para que as funções na fábrica com o maquinário fossem executadas. Esse modelo de escola procurava preparar a grande massa para trabalhar como operários. Para a burguesia era muito vantajoso tornar os trabalhadores disciplinados, bons cidadãos e eficientes em suas funções. Embora vista como uma instituição neutra, nessa época a escola dissemina o pensamento ideológico de quem comanda a sociedade.

Os modelos de sala de aula eram grandes com muitas carteiras em linhas e colunas com o intuito de otimizar o espaço, deixando o professor que era o detentor do conhecimento como centro das atenções, e às vezes os colocando em palcos.

 

the wall

A Terceira Revolução Industrial inclui a alta tecnologia, produção em massa que tem início na indústria automobilística, se torna padrão no mundo inteiro. Essa traz grandes avanços no campo da informática, robótica, transportes, comunicações entre outros. As exigências para os operários aumentam, pois agora deve possuir habilidades variadas para trabalhar com as máquinas automatizadas, que não só fazem o serviço mais pesado, como são capazes de produzir cálculos complexos com precisão e fazer tarefas que são mais sutis. As inovações trazidas por esse período causam um grande impacto, pois o sistema de hierarquia gerencial e as linhas de produção são substituídos por equipes multiqualificadas que trabalham em conjunto.

A escola teve que se preparar para trabalhar com essas inovações, procurando adequar seus alunos para essa nova exigência e demanda que o mercado e a indústria começaram a criar. Foram criados programas de incentivo a educação científica e tecnológica, novos conteúdos e disciplinas foram inseridos na grade escolar. Tivemos grande avanço no sistema educacional que passa a ser para todos, dando oportunidade de estudar todo o Ensino Básico independente da sua classe social. A educação dessa era começa a unir à educação aprendida fora do contexto escolar, procurando transformar esse sujeito não apenas para o trabalho, mas também para a sua vida social.

Hoje, estamos vivendo em uma era onde estamos conectados em tempo real com o mundo inteiro. Sabemos o que está acontecendo nesse exato momento no Sul da Rússia em poucos cliques e segundos. Inclusive, cada vez mais nos deparamos com imagens como a foto abaixo, crianças imersas em uma tela de celular ou tablets, interagindo com grande domínio com esses dispositivos. A Era onde a tecnologia e a informação estão ao nosso redor e não podemos acreditar que os nossos alunos não têm acesso a ela ou já não estejam conectados e tenham mais habilidades que nós para manipulá-las.

portal_aqui_tem_criancas_miopia

Essa Era exige do trabalhador outras habilidades pois as atividades passam a ser mais criativas, exigindo grande conhecimento, autonomia para resolver problemas encontrados no ambiente de trabalho, habilidades de trabalhar em grupo, tomar decisões, liderar, resolver conflitos, desenvolver o pensamento, reflexão e a argumentação.

Porém, será que as escolas acompanharam essa mudança?

Pense em sua sala de aula, ela é muito diferente dessas representadas nas fotos antigas?

 

Ao olhar a nossa estrutura, nossas cadeiras continuam enfileiradas, onde os alunos ficam de costas uns para os outros e com a atenção voltada para o professor.

Pense nas aulas que você teve na escola e nas que você dá hoje em dia. Houveram mudanças?

Será que nossas práticas avançaram e estão de acordo com essa nova demanda educacional que o mercado tecnológico exige ou continuamos trabalhando em um modelo que transforma os alunos em operários, bons trabalhadores que cumprem tarefas com pouco desenvolvimento de raciocínio?

ensino_06

O mundo mudou e continua mudando, enquanto isso seguimos com um modelo de escola que, embora tenha funcionado até então, foi criado no século XIX, há mais de 150 anos atrás. A escola precisa mudar para que possamos formar os nossos alunos para esse novo mundo. Vamos lá profs, a escola precisa acompanhar essa mudança e você é a peça principal para ela. Vamos parar de formar alunos operários e começar a formar líderes.

Aproveite para fazer o download de um infográfico sobre o assunto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s